Quinta, 28 de abril de 2011 às 14h53
"O que a vida nos impõe como necessidade para nossa sobrevivência pessoal e social acaba por completar tudo aquilo que é inato"
Um dos trabalhos mais gratificantes em minha vida profissional como pedagogo do esporte foi escrever o “Manual do Atleta Inteligente” em parceria com o professor João Paulo Medina.
Neste manual, pudemos descrever uma metodologia diferenciada para o ensino e treinamento do futebol, e também uma infinidade de dicas importantes para se tornar um atleta inteligente para o século XXI.
Contudo, quero destacar em especial uma parte desse material, a qual tinha o objetivo de mostrar e elucidar aos pretensos jogadores de futebol questões relativas ao inato e adquirido, especificamente, no que diz respeito à inteligência para o jogo.
O tópico que tratava desse tema tinha por título “A história do balde”, e lapidado pelo professor Medina, dizia o seguinte:
“Apesar da evolução das ciências e das ciências do esporte, infelizmente muitos ainda acreditam que jogar bem futebol é tão somente uma questão de dom, ou seja, de possuir um talento inato (hereditário, herdado dos nossos pais, avós etc.). Logo, se é inato, significa que nasceu com a pessoa. Então, não precisa ser treinado. Ou seja, este pensamento leva esses jogadores a se acomodarem, pensando que não necessitam se esforçar, e o que é pior: faz com que eles pensem que são diferentes dos demais seres humanos, pois jogar bem o futebol é uma qualidade que não pode ser adquirida.
Esta maneira de pensar vai na contramão de tudo aquilo que se entende hoje em dia por inteligência. Claro que algumas características são herdadas, ou seja, nascem com a pessoa. Outras, entretanto, são adquiridas através da cultura, da educação, do treinamento.
Depois de muitas pesquisas e ainda longe de conhecer toda a complexidade humana, a ciência já consegue explicar, ou melhor, criar algumas hipóteses fundamentadas a respeito deste assunto.
Alguns cientistas e professores utilizam a “metáfora do balde” (estorinha do balde) para ilustrar esta questão relativa ao que seria inato, ou seja, aquilo que nasce com a pessoa e o que é adquirido através de hábitos, costumes, cultura, ensinamentos etc.
Esses estudiosos nos ensinam que todo mundo nasce como se tivesse carregando um determinado balde. Contudo, cada um possui um balde de um tamanho específico e diferente um do outro, representando, assim, de forma figurada, nosso potencial genético de inteligência (entenda capacidade de resolver problemas). Mas de nada vale um potencial grande, ou seja, um enorme balde que cabe muitos litros, se o ambiente não for rico o suficiente para enchê-lo, e mesmo completá-lo com um conteúdo de qualidade.
Na prática isto significa que você pode até ter um enorme talento (ou seja, nasceu com um grande balde – alto potencial de aprendizagem), mas não se tornar um grande profissional, pois não sabe como encher seu balde com água limpa. Muitos craques, apesar do talento, ou deixam seus baldes vazios, ou colocam muita água suja dentro dele (más companhias, preguiça, desprezo pelo estudo, egoísmo, medo, insegurança etc.).
Por outro lado você pode ter nascido com um balde que não é tão grande, mas aprende a colocar água limpa dentro dele todos os dias e em todas as oportunidades de sua vida. Com isso você conseguirá fazer muito mais do que muita gente que tem o balde maior do que o seu. É tudo uma questão de desenvolver ao máximo suas capacidades, através de conhecimentos e habilidades adequadas e, sobretudo, atitudes positivas.
Sendo assim, uma pessoa com grande potencial genético pode não ser tão inteligente (ou capaz de resolver problemas) quanto uma pessoa que até apresenta certas restrições potenciais e dificuldades, porém sabe aproveitar o que o ambiente lhe proporciona, demonstrando maior capacidade de adaptação. Segundo a lógica da seleção natural, a sobrevivência pessoal ou social sempre estará do lado daquele com maior capacidade de adaptação. Portanto, para vencer na vida (e no futebol), você precisa ter certo potencial genético, mas precisa, sobretudo, aprender a se adaptar às diferentes situações.
Resumindo, podemos dizer que todo ser humano, atleta ou não, possui algo que é inato (natural / biológico). Nossa capacidade para aprender é um bom exemplo disso. Todos têm, em graus diferentes, a capacidade para aprender. Nascemos potencialmente com esta capacidade. Porém o adquirido, (cultural / social), ou seja, o que a vida nos impõe como necessidade para nossa sobrevivência pessoal e social acaba por completar tudo aquilo que é inato. Esta adaptação ao mundo ou mais especificamente ao lugar em que vivemos é muito dependente das pessoas com quem convivemos.
É muito conhecido aquele ditado “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Se você anda, por exemplo, com pessoas que não querem se esforçar para crescer, com empresários que pensam primeiro no dinheiro antes de pensar em seu desenvolvimento ou pessoas que acham que o prazer momentâneo é mais importante do que o prazer duradouro, conseguido através de muito esforço e sacrifícios, muito rapidamente você também estará pensando igualzinho a eles.
Portanto, cercar-se de gente interessante, que seja fonte de aprendizado e inspiração, confiança e segurança, que estimule você a crescer e ser uma pessoa melhor deve ser sua preocupação constante e diária.
Ao mesmo tempo, conviver em diversificados ambientes de aprendizagem, tanto na dimensão pessoal, social e, especialmente, profissional garantirá o desenvolvimento pleno e satisfatório de sua inteligência.”
Sem dúvida é uma ótima história, que todos os jogadores e professores/treinadores de futebol deveriam ler e ter consciência de quanto suas atitudes e ações são fundamentais para a criação dos ambientes de aprendizagem ótimos para o preenchimento dos baldes de seus alunos e atletas.
WWW.MESQUITAONLINE.COM.BR